Tenho uma tendência a assistir a TV Cultura nos domingos à noite para ouvir o Psicanalista Contardo Calligaris falar, e um dia desses ele falava sobre o casamento. A frase foi mais ou menos essa: Eu tenho mais medo que ela se traia do que me traia.
Quantas reflexões a respeito... O que seria trair-se? Seria trair os próprios desejos, as próprias vontades. É bastante nobre alguém que aguente que o outro ao seu lado siga seus próprios desejos, e da mesma forma é nobre descobrir e ir atras dos seus. Talvez seja esse o casamento que mais dê certo, pois não haveria cobranças do tipo: eu não fiz aquilo o que eu tanto desejava porque eu estava ao seu lado. E ainda que não houvesse cobranças "formais", haveria uma culpa interna por ter traído sim os próprios desejos. Creio que se ambos do casal conseguem realizar seus desejos, mesmo quando seus desejos não coincidem e eles não realizam coisas juntos, e se ainda assim eles continuam se amando e suportando isso sem apegos desnecessários, esse casal deve ter feito muita análise.
Talvez o ciúme seja quase uma inveja de que o outro passe a realizar o seu desejo por outra pessoa, coisa que o ciumento não tem a coragem de fazer.
quarta-feira, 13 de janeiro de 2010
segunda-feira, 19 de outubro de 2009
Dizer "não" é amar!
Quando vejo uma mãe que não consegue negar nada ao filho, prevejo um futuro muito infeliz para ele e para ela.
Dizer "não" é amar, mas muitas mães acham que não, que por muitas vezes fazerem o filho chorar, elas podem não estar fazendo bem a ele, mas estão.
O "não" ensina que o mundo impõe limites aos nossos desejos. Filhos que ouvem "não" estão mais preparados às possíveis frustrações que vierem a sofrer, e, cá pra nós, não há quem não as sofra.
O "não" contorna, explica a realidade. Assim como o "sim" acolhe, aconchega, o "não" protege, educa, previne, constrói, desenvolve. Os dois devem estar presentes e devem fazer sentido pra criança, não devem ser contraditórios e o ideal é que pai e mãe ou cuidadores estejam em sintonia quanto ao que merece um "sim" e o que necessita um "não".
O adulto que quando criança só ouviu "tá bom", "pode", "sim", "claro", "meu filho não pode ficar sem", corre o risco de se frustrar de forma muito sofrida diante dos "não posso", "não dá", "agora não", "você está demitido", "vamos terminar". E o curioso é que muitas vezes esse adulto sofrendo de frustração recorre à mãe, que fica desejando resolver as frustrações do filho, emprestando o dinheiro que ele deve ao banco, dando casa, comida e roupa lavada ao trintão desempregado, e por aí vai...
É algo simples, mas que resolve muitas coisas.
Claro que se a mãe está com muitas dificuldades em dizer "não", ela pode estar precisando de uma ajuda profissional, pois pode ser insuportável pra ela ser aquela que vai cortar o barato do filho, ainda que pra fazê-lo feliz no futuro.
Dizer "não" é amar, mas muitas mães acham que não, que por muitas vezes fazerem o filho chorar, elas podem não estar fazendo bem a ele, mas estão.
O "não" ensina que o mundo impõe limites aos nossos desejos. Filhos que ouvem "não" estão mais preparados às possíveis frustrações que vierem a sofrer, e, cá pra nós, não há quem não as sofra.
O "não" contorna, explica a realidade. Assim como o "sim" acolhe, aconchega, o "não" protege, educa, previne, constrói, desenvolve. Os dois devem estar presentes e devem fazer sentido pra criança, não devem ser contraditórios e o ideal é que pai e mãe ou cuidadores estejam em sintonia quanto ao que merece um "sim" e o que necessita um "não".
O adulto que quando criança só ouviu "tá bom", "pode", "sim", "claro", "meu filho não pode ficar sem", corre o risco de se frustrar de forma muito sofrida diante dos "não posso", "não dá", "agora não", "você está demitido", "vamos terminar". E o curioso é que muitas vezes esse adulto sofrendo de frustração recorre à mãe, que fica desejando resolver as frustrações do filho, emprestando o dinheiro que ele deve ao banco, dando casa, comida e roupa lavada ao trintão desempregado, e por aí vai...
É algo simples, mas que resolve muitas coisas.
Claro que se a mãe está com muitas dificuldades em dizer "não", ela pode estar precisando de uma ajuda profissional, pois pode ser insuportável pra ela ser aquela que vai cortar o barato do filho, ainda que pra fazê-lo feliz no futuro.
segunda-feira, 28 de setembro de 2009
A linguagem dos sonhos
Os sonhos sempre se nos apresentam como um enigma a ser decifrado, nele a linguagem parece desconexa, sem sentido... é necessário um trabalho de análise para compreender o que o nosso inconsciente nos diz.
A interpretação de um sonho é um trabalho que requer associações livres de censura, para aos poucos desvendarmos o desejo encoberto pelas sobreposições de imagens que o sonho traz.
Penso que o sonho é como a linguagem poética, que possibilita inúmeros caminhos de compreensão. Um poema quando é escrito, externa algo muito particular de quem o escreveu, e nem sempre é possível compreender o sentido completo que o escritor quis dar.
Um poema quando é lido, pode gerar no leitor sentimentos e sensações muito diferentes daquelas que sentia o escritor. E cada leitor pode ter uma reação diferente frente àquela linguagem poética.
O sonho permite o mesmo fenômeno. O conteúdo do sonho só pode ser desvendado pelo próprio sonhador, o analista só faz facilitar o caminho. Conteúdos semelhantes em sonhadores diferentes, certamente dizem respeito a desejos diferentes.
Nossa mente é repleta de conteúdos que foram sendo depositados, como um baú velho, precisa ser aberto e mexido, para relembrar, para reencontrar, para reviver e para resignificar.
Finalizo o texto com um pequeno poema, arriscando-me nesta bela linguagem:
Encontro
onde anda lembrança
ontem ainda via
antes à mente vinha
quando virá de novo
o antigo que em mim
habita
PS.: agradeço aos comentários dos textos anteriores, caso desejem, escrevam no e-mail: danismid@usp.br
A interpretação de um sonho é um trabalho que requer associações livres de censura, para aos poucos desvendarmos o desejo encoberto pelas sobreposições de imagens que o sonho traz.
Penso que o sonho é como a linguagem poética, que possibilita inúmeros caminhos de compreensão. Um poema quando é escrito, externa algo muito particular de quem o escreveu, e nem sempre é possível compreender o sentido completo que o escritor quis dar.
Um poema quando é lido, pode gerar no leitor sentimentos e sensações muito diferentes daquelas que sentia o escritor. E cada leitor pode ter uma reação diferente frente àquela linguagem poética.
O sonho permite o mesmo fenômeno. O conteúdo do sonho só pode ser desvendado pelo próprio sonhador, o analista só faz facilitar o caminho. Conteúdos semelhantes em sonhadores diferentes, certamente dizem respeito a desejos diferentes.
Nossa mente é repleta de conteúdos que foram sendo depositados, como um baú velho, precisa ser aberto e mexido, para relembrar, para reencontrar, para reviver e para resignificar.
Finalizo o texto com um pequeno poema, arriscando-me nesta bela linguagem:
Encontro
onde anda lembrança
ontem ainda via
antes à mente vinha
quando virá de novo
o antigo que em mim
habita
PS.: agradeço aos comentários dos textos anteriores, caso desejem, escrevam no e-mail: danismid@usp.br
segunda-feira, 7 de setembro de 2009
Outra personalidade ao volante
Outro dia meu irmão perguntou-me porque algumas pessoas aparentemente tranqüilas se transformam em monstros ao volante. Na hora não refleti sobre o assunto, mas vou tentar algo aqui.
O indivíduo que ao andar nas calçadas esbarra em outro e pede desculpas, quando sentado frente ao volante, enfurece quando um esbarrão ou a possibilidade premente dele ocorre.
Uma das hipóteses é a de que dentro de um veículo, um certo poder é conferido ao indivíduo. Um poder de domínio e controle sobre a máquina, um poder de saber interagir perfeitamente com aquele invólucro metálico, e ainda de saber se movimentar perfeitamente no asfalto. Esse poder não existe no homem despido de uma armadura que esbarra em outro.
Suponho que o homem que é investido desse poder quase bélico e desse pleno saber sobre seu espaço automobilístico se julgue único e além disso perca a noção de que é apenas humano, pois sua armadura metálica torna-se parte de si.
Um homem armado é mais corajoso a enfrentar duelos do que um homem despido de armamento, ou armadura. E não só mais corajoso como mais desafiante.
Um homem corajoso, desafiante, armado, único, quando é desafiado em seu poder por alguma outra máquina que ultrapassa em sua frente, julgando ser ele menor, mais frágil, menos potente, é suficiente para colocá-lo louco para provar sua capacidade sobre-humana.
Este homem-máquina não vê homens despidos de armadura, vê outros homens-máquina que disputam seus espaços, suas colocações nas filas do trânsito, suas acrobacias automobilísticas.
Fora de suas armaduras, voltam a ser cordiais humanos que sorriem ao se esbarrarem, pois sabem-se carne e osso.
O indivíduo que ao andar nas calçadas esbarra em outro e pede desculpas, quando sentado frente ao volante, enfurece quando um esbarrão ou a possibilidade premente dele ocorre.
Uma das hipóteses é a de que dentro de um veículo, um certo poder é conferido ao indivíduo. Um poder de domínio e controle sobre a máquina, um poder de saber interagir perfeitamente com aquele invólucro metálico, e ainda de saber se movimentar perfeitamente no asfalto. Esse poder não existe no homem despido de uma armadura que esbarra em outro.
Suponho que o homem que é investido desse poder quase bélico e desse pleno saber sobre seu espaço automobilístico se julgue único e além disso perca a noção de que é apenas humano, pois sua armadura metálica torna-se parte de si.
Um homem armado é mais corajoso a enfrentar duelos do que um homem despido de armamento, ou armadura. E não só mais corajoso como mais desafiante.
Um homem corajoso, desafiante, armado, único, quando é desafiado em seu poder por alguma outra máquina que ultrapassa em sua frente, julgando ser ele menor, mais frágil, menos potente, é suficiente para colocá-lo louco para provar sua capacidade sobre-humana.
Este homem-máquina não vê homens despidos de armadura, vê outros homens-máquina que disputam seus espaços, suas colocações nas filas do trânsito, suas acrobacias automobilísticas.
Fora de suas armaduras, voltam a ser cordiais humanos que sorriem ao se esbarrarem, pois sabem-se carne e osso.
Assinar:
Postagens (Atom)