sábado, 20 de agosto de 2011

O sonho e a poesia

Pois não é que às vezes sinto-me, lá em minha poltrona, detrás do divã, fazendo poesia...

E não é pelas belas palavras (não se diz poeta aquele que emite belas palavras?) que sim, às vezes até saem, mas é pela coisa de tentar pôr em palavras o pensamento, de tentar tocar o outro com a palavra dita, como se eu pudesse dizer a mais perfeita tradução do que pensei e do que o outro pode compreender, e com isso entrar no universo do outro, fazer parte, transformá-lo. Não será este o anseio do poeta?

A palavra sai tentando se fazer entender, mas sempre falta, sempre deixa brechas... uma ausência que acaba sendo preenchida com sentimentos, lembranças... Porque no que se diz sempre está contido o que não foi dito e nosso desejo completa o dito com o não dito, tampa buracos. Tampa? É de buracos que somos feitos. Não pode ficar o dito pelo não dito, há que se insistir, fazer disso tarefa contínua do dizer-se. Nesse sentido o poeta faz algo muito diferente do analista, o primeiro deixa muitos não ditos, o segundo precisa tudo dizer.

Na incontinência da palavra

ficam buracos,

fica o não dito,

o sentido,

sentimento buscando sentido,

direção,

descarga de libido.

O sonho é uma poesia que ainda está no pensamento, boiando... E no exato momento em que a gente conta um sonho, a imagem, o pensamento, a sensação ganham um tanto de sentido, mas noutro tanto se perdem, viram fumaça. A palavra não pode conter o sonho. Nem a poesia. [talvez]Só a análise.


terça-feira, 7 de junho de 2011

Sobre a dinâmica da transferência

"Deve-se compreender que cada indivíduo, através da ação combinada de sua disposição inata e das influências sofridas durante os primeiros anos, conseguiu um método específico próprio de conduzir-se na vida erótica... Isso produz o que se poderia descrever como um clichê estereotípico..." - Freud (1912)

Com esta frase que inicia o texto "A dinâmica da transferência", Freud explicita o mecanismo neurótico da repetição - o clichê estereotípico da vida erótica do indivíduo, para introduzir o conceito de transferência, um fenômeno que então se atualiza e portanto se repete na interação analista-analisando.

Segundo Laplanche e Pontalis, transferência designa em psicanálise "o processo pelo qual os desejos inconscientes se atualizam sobre determinados objetos no quadro de um certo tipo de relação estabelecida com eles e, eminentemente, no quadro da relação analítica." E segue. "Trata-se aqui de uma repetição de protótipos infantis vivida com um sentimento de atualidade acentuada."

Poderíamos dizer que o neurótico só produz a transferência pois de alguma forma busca inconscientemente reviver uma situação infantil, principalmente a ocasião da satisfação plena simbiótica.

Ocorre que a busca incessante e repetitiva do neurótico pela satisfação plena não tem fim, pois não é possível replicar a satisfação primordial. O desejo então não finda. O objeto da pulsão figura como uma eterna miragem. Como aquela caricatura do burro que corre atrás da cenoura presa diante e distante de sua fronte.

Ora, é por isso que na análise, a identificação da transferência permite um manejo técnico onde o analisando terá a oportunidade de romper com a repetição, ou ao menos refletir sobre a iminência da repetição. A análise permite uma não alienação acerca destas repetições e dos seus porquês, o que amplia a condição de liberdade do indivíduo.






segunda-feira, 18 de abril de 2011

A bissexualidade inata

Em cartas trocadas com Freud, Fliess introduz a idéia da bissexualidade inata. Freud desenvolve esta idéia nos "Três ensaios sobre a teoria da sexualidade", segundo a qual todos nascemos com uma predisposição à bissexualidade, e ao longo do desenvolvimento, acabamos por reprimir o desejo pelo mesmo sexo (tornando-nos heterossexuais) ou o desejo pelo sexo oposto (tornando-nos homossexuais). E seguimos carregando vestígios e aspectos da sexualidade que foi reprimida, devido à predisposição para a bissexualidade.

Torna-se difícil afirmar que uma repressão possa ser completa, portanto estes vestígios ora são muito tênues, ora são bem acentuados, mas estão sempre lá.

Ocorre que ao perceber em si que há um traço de desejo homossexual, muitos tendem a passar por uma espécie de crise.

Um dos melhores lugares para procurar nestes momentos é um consultório de um analista, em muitos outros lugares (não são todos os outros lugares, é claro) poderá se encontrar preconceito e hostilidade, acusação e culpabilidade.
De antemão, é preciso saber que sentimentos de desejo para com o mesmo sexo estão em todos nós, mais ou menos reprimidos.

quinta-feira, 14 de abril de 2011

Por que a hipnose foi abandonada por Freud

Freud formou-se em medicina em 1881 e após trabalhar como anátomo-patologista, especializa-se em neuropsiquiatria. Faz um estágio em Paris, com Charcot, médico influente que fez muitos adeptos da hipnose, muito por conta de seu método que mais poderia ser comparado a um espetáculo. Charcot reunia um grande grupo de espectadores médicos e lhes apresentava o funcionamento da hipnose utilizando uma de suas pacientes e também médicos voluntários da platéia, retirava sintomas (paralisias, cegueiras, tremores...) como se fosse mágica, mas era ciência, era a comprovação da existência de um inconsicente.
Freud então teve um contato especial com a hipnose, que lhe pareceu a opção perfeita de tratamento para a histeria, afecção sem etiologia orgânica que incomodava médicos da época.
Em 1886 abre seu consultório em Viena, onde aplica a hipnose nas pacientes histéricas.
Ocorre que Freud começa a verificar que a hipnose surtia efeito apenas temporário para a retirada dos sintomas histéricos. Logo eles retornavam ou iguais, a mesma paralisia, ou o mesmo tremor; ou diferentes, surgia um tremor sem etiologia orgânica em quem estava com paralisia antes da hipnose, por exemplo. Freud então constatou que a hipnose apenas servia para provar que conteúdos podem ser armazenados em um local da mente, o inconsciente e que este inconsciente pode ser mexido.
Freud então começou a se dedicar a maneiras de tornar conscientes os conteúdos inconscientes que causavam sintomas. Foi então que transitou do método catártico para o método da associação livre, após abandonar completamente a hipnose.
O que podemos nos perguntar é se a hipnose que se utiliza hoje em dia tem alguma finalidade.
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