A escuta analítica acolhe o que a sociedade rejeita, abre espaço para a invasão dos bárbaros, do infantil. A psicanálise se dedica à escuta do infantil, e "infans" é o que não fala, ao menos não fala a língua da civilidade. O paciente é inocente e imaturo (infantil), e por outro lado é voraz e impaciente (bárbaro).
Deve-se abrir espaço para o incomunicável no consultório analítico. O encontro do analista e do paciente dá lugar ao excluído da sociedade e não deixa de sofrer os embates deste momento em sua impetuosidade. Esse encontro se dá às margens da civilização.
Desta forma, a Psicanálise proporciona um encontro inviável, impossível, insatisfatório, mas suficientemente bons, pois o que é ignorado na sociedade, pode ser dito e ouvido na análise.
segunda-feira, 15 de setembro de 2008
sexta-feira, 22 de agosto de 2008
Reflexões acerca do fenômeno da "doença" mental
Influenciados pelos discursos médicos que contaminam a reflexão acerca do fenômeno da "doença" mental, há psicólogos tendentes a obscurecer a escuta clínica do chamado louco e trocar essa escuta por um caminho muito bem propagado e vendido como mais rápido e mais eficaz: o da medicação. E isso é um perigo.
O perigo desta atitude está em contribuir para a manutenção deste ciclo vicioso que investe a psiquiatria e (infelizmente) analogicamente a indústria farmacêutica de um poder que ela não deveria ter, e não deveria pois se empenha para desconstruir a importância das relações sociais e construir a fantasia da solução mágica para as insatisfações do cotidiano, soluções que sabidamente (pelos que fazem e pelos que tomam as drogas que supostamente tratam as supostas doenças mentais) não existe.
Reconhecer que alguns medicamentos possibilitam melhoras na qualidade de vida de algumas pessoas que sofrem da mente, não significa aceitar que tudo o que é vendido como algo que fará bem, realmente fará.
Se não for a Psicologia e a Psicanálise a criticar e se colocar contra esses discursos e posturas nocivas ao estabelecimento dos vínculos interpessoais, maior será a força da indústria farmacêutica, que sob o argumento de ajudar as pessoas, vendem pílulas e ganham fortunas que os capacitam a comprar caráter e índole, opinião e ética de muitos profissionais.
É inaceitável que o investimento em pesquisas que de fato melhorem a qualidade de vida dessas pessoas tenha sido deixado nas mãos de vendedores.
Calar diante disso, é manter esse ciclo de poder nefasto e devastador.
O perigo desta atitude está em contribuir para a manutenção deste ciclo vicioso que investe a psiquiatria e (infelizmente) analogicamente a indústria farmacêutica de um poder que ela não deveria ter, e não deveria pois se empenha para desconstruir a importância das relações sociais e construir a fantasia da solução mágica para as insatisfações do cotidiano, soluções que sabidamente (pelos que fazem e pelos que tomam as drogas que supostamente tratam as supostas doenças mentais) não existe.
Reconhecer que alguns medicamentos possibilitam melhoras na qualidade de vida de algumas pessoas que sofrem da mente, não significa aceitar que tudo o que é vendido como algo que fará bem, realmente fará.
Se não for a Psicologia e a Psicanálise a criticar e se colocar contra esses discursos e posturas nocivas ao estabelecimento dos vínculos interpessoais, maior será a força da indústria farmacêutica, que sob o argumento de ajudar as pessoas, vendem pílulas e ganham fortunas que os capacitam a comprar caráter e índole, opinião e ética de muitos profissionais.
É inaceitável que o investimento em pesquisas que de fato melhorem a qualidade de vida dessas pessoas tenha sido deixado nas mãos de vendedores.
Calar diante disso, é manter esse ciclo de poder nefasto e devastador.
terça-feira, 15 de julho de 2008
Resposta aos pontos nevrálgicos das provocações de Aldo Pereira no texto “Órfãos de Freud”, na Folha de hoje.
É uma inverdade que nenhum psicanalista ousa diagnosticar a histeria atualmente. É sabido que os sintomas histéricos atuais, em geral, não se apresentam mais como as paralisias, as cegueiras e mudezes do final do século XIX, no entanto apresentam-se sob outras formas e com o mesmo diagnóstico, pois diferentemente dos diagnósticos médicos tão minuciosamente descritos nos manuais de doenças mentais, os psicanalíticos não se baseiam nos sintomas, e sim na estrutura psíquica, a saber: neurose (como histeria e neurose obsessiva), psicose (como paranóia e esquizofrenia) e perversão.
Se os complexos e neuroses foram retirados dos Manuais de Doenças Mentais, não significa que houve declínio na formação de psicanalistas e que estes entraram numa corrida pela cientificidade psicanalítica. Houve, certamente profissionais com a lógica cartesiana da ciência exata e mensurável tão incrustrada nos seus valores, que se desesperaram com os discursos que tentavam “atacar” a psicanálise “acusando-a” de ser não-científica, mas houve também profissionais que tranquilamente aceitaram esse lugar de não-ciência, mais próximo da filosofia, que a psicanálise oferece.
Se hoje a medicina tenta injeitar a psicanálise, digo que o mesmo ocorre com a psicanálise em relação à medicina. São incompatíveis e não há nada de errado nisso. A cura pode estar ligada a tantas coisas, inclusive a crenças, sem dúvida.
Quanto à formação do psicanalista, que pode ter qualquer curso superior, inclusive medicina, há tentativas das instituições formadoras idôneas e respeitáveis de se cercar de critérios e cuidados para que se forme um bom psicanalista, mas como em toda área do conhecimento, há boas e más formações, boas e más instituições formadoras, bons e maus alunos, digo em termos de qualidade, nenhum valor moral está implícito aqui.
O tratamento psicanalítico é profundo, pois lida com a estrutura e não com o sintoma, como eu disse anteriormente, então não há como ser algo breve, apesar de termos exemplos descritos em literatura, de brilhantes trabalhos psicanalíticos breves. E considerando que nossas vivências e experiências são uma rede indissociável de fenômenos, é mesmo possível que não se veja perfeitamente, até porque isso não se mensura mesmo, se houve realmente uma influência positiva do analista na vida do analisando, pois este vai mudando vagarosamente de postura frente à vida, em busca da independência e da saúde, a cada experiência transformadora de uma sessão psicanalítica.
A síntese entre a religião e a Psicanálise é algo que não enfurece os psicanalistas, como poderia enfurecer a alguns cientistas, talvez pela Psicanálise não ser ciência, pelo contrário, é um fenômeno digno de ser estudado, pois chama a atenção.
Outro dia mesmo estava eu pensando que o dízimo pago pelos fiéis se aproxima, mutatis mutandi, dos honorários pagos ao analista, no aspecto de pagar um profissional em quem você confia e que está te auxiliando numa cura, pois é inegável que os fiéis que crêem no poder do pastor, saiam do encontro mudados para melhor, ou até curados. Há alguns antropólogos que explicaram isso, xamanismo, válido também para a psicanálise, sem dúvida, e pra muitos outros postos de poder.
Se os complexos e neuroses foram retirados dos Manuais de Doenças Mentais, não significa que houve declínio na formação de psicanalistas e que estes entraram numa corrida pela cientificidade psicanalítica. Houve, certamente profissionais com a lógica cartesiana da ciência exata e mensurável tão incrustrada nos seus valores, que se desesperaram com os discursos que tentavam “atacar” a psicanálise “acusando-a” de ser não-científica, mas houve também profissionais que tranquilamente aceitaram esse lugar de não-ciência, mais próximo da filosofia, que a psicanálise oferece.
Se hoje a medicina tenta injeitar a psicanálise, digo que o mesmo ocorre com a psicanálise em relação à medicina. São incompatíveis e não há nada de errado nisso. A cura pode estar ligada a tantas coisas, inclusive a crenças, sem dúvida.
Quanto à formação do psicanalista, que pode ter qualquer curso superior, inclusive medicina, há tentativas das instituições formadoras idôneas e respeitáveis de se cercar de critérios e cuidados para que se forme um bom psicanalista, mas como em toda área do conhecimento, há boas e más formações, boas e más instituições formadoras, bons e maus alunos, digo em termos de qualidade, nenhum valor moral está implícito aqui.
O tratamento psicanalítico é profundo, pois lida com a estrutura e não com o sintoma, como eu disse anteriormente, então não há como ser algo breve, apesar de termos exemplos descritos em literatura, de brilhantes trabalhos psicanalíticos breves. E considerando que nossas vivências e experiências são uma rede indissociável de fenômenos, é mesmo possível que não se veja perfeitamente, até porque isso não se mensura mesmo, se houve realmente uma influência positiva do analista na vida do analisando, pois este vai mudando vagarosamente de postura frente à vida, em busca da independência e da saúde, a cada experiência transformadora de uma sessão psicanalítica.
A síntese entre a religião e a Psicanálise é algo que não enfurece os psicanalistas, como poderia enfurecer a alguns cientistas, talvez pela Psicanálise não ser ciência, pelo contrário, é um fenômeno digno de ser estudado, pois chama a atenção.
Outro dia mesmo estava eu pensando que o dízimo pago pelos fiéis se aproxima, mutatis mutandi, dos honorários pagos ao analista, no aspecto de pagar um profissional em quem você confia e que está te auxiliando numa cura, pois é inegável que os fiéis que crêem no poder do pastor, saiam do encontro mudados para melhor, ou até curados. Há alguns antropólogos que explicaram isso, xamanismo, válido também para a psicanálise, sem dúvida, e pra muitos outros postos de poder.
quinta-feira, 3 de julho de 2008
A perversão
A psicanalista e historiadora (que bela combinação de saberes!) Elisabeth Roudinesco deve estar a essa hora falando sobre Perversão na sexta edição da Festa Literária Internacional de Paraty. É um tema que urge.
Os atos perversos que ocorrem na sociedade chamam a atenção de toda a população, não só porque são comportamentos que fogem à norma, mas também por tangenciarem aspectos que estão presentes em cada um de nós, as pulsões destrutivas, perversas.
No entanto é interessante que se mantenha a idéia da diferença entre a pessoa que pratica o ato perverso e aquela que sente-se indignada com isso, pois é nessa diferença que se estrutura a existência da civilização. Mais especificamente, é na possibilidade de controle das pulsões que está a diferença entre civilização e barbárie.
Os atos perversos que ocorrem na sociedade chamam a atenção de toda a população, não só porque são comportamentos que fogem à norma, mas também por tangenciarem aspectos que estão presentes em cada um de nós, as pulsões destrutivas, perversas.
No entanto é interessante que se mantenha a idéia da diferença entre a pessoa que pratica o ato perverso e aquela que sente-se indignada com isso, pois é nessa diferença que se estrutura a existência da civilização. Mais especificamente, é na possibilidade de controle das pulsões que está a diferença entre civilização e barbárie.
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